A farsa

anibal_pires.jpgAo retomar este espaço, de onde me ausentei por três semanas, preferia partilhar convosco outro assunto que não este que vos trago. Gostaria de não ter outro tema que não fosse a conquista do campeonato nacional pelo “glorioso”.

Mas, toda a encenação à volta do anúncio do valor do défice público feita pelo Governador do Banco de Portugal, a justificar e a demonstrar a inevitabilidade da tomada de medidas para sair da “crise” obrigam-me, em consciência, a vir a terreiro dar conta da minha indignação, não só por este facto mas também, e sobretudo, pelo conjunto de medidas que se prevê venham a ser anunciadas pelo governo de José Sócrates com o objectivo de debelar a famigerada e permanente “crise” e combater o défice público. Passou muito pouco tempo sobre o acto eleitoral que guindou para o poder o PS para que o povo português, que lhe conferiu uma confortável maioria absoluta, se esquecesse das promessas eleitorais feitas pelo engenheiro que preside ao governo. Aliás, foi no pressuposto do anunciado na campanha eleitoral e contra as políticas que vinham a ser seguidas pelo anterior governo que os eleitores votaram à esquerda e depositaram no PS a sua confiança. Talvez por isso o governo de José Sócrates tivesse recorrido, não só ao governador do Banco de Portugal, mas também aos seus apaniguados analistas e outros especialistas na arte de fazer opinião e as consciências para, ao longo das últimas semanas, preparar os incautos portugueses para aceitarem, candidamente, as medidas agora anunciadas e que, uma vez mais, se prevê venham a penalizar quem mais contribui para as receitas do orçamento.

Os argumentos são os de sempre, mas nem sempre válidos, e as medidas visam a prazo a liquidação dos sectores sociais do Estado. A educação, a saúde e a segurança social, e é disto que se trata, representando o grosso das despesas do Estado, são, vá-se lá saber porquê, sectores muito apetecidos para o sector privado. A estratégia não é nova e o caminho vem-se, paulatinamente, preparando para entregar ao sector privado a saúde e a educação. Não tenho, por princípio, nada contra a actividade privada, nem mesmo nestes sectores, mas considero igualmente, por uma questão de princípios, que devem ser garantidos pelo Estado e portanto não devem ser objecto de privatização. Mas a minha indignação e repúdio, talvez mais emotiva do que racional porque assente em conjecturas, centra-se no facto de terem apenas decorrido 3 meses do acto eleitoral. E eu, assim como muitos portugueses, termos, legitimamente, muitas dúvidas de que em Fevereiro não fosse já do conhecimento do PS e do engº Sócrates o valor do défice público. Admito que não conhecesse o valor com a precisão das centésimas, tal como foi anunciado por Vítor Constâncio, mas sabia, com certeza, qual era a parte inteira do número divulgado esta semana.

Sendo assim, e tenho poucas dúvidas que o não seja, as promessas eleitorais do PS e do engenheiro não passaram disso mesmo: promessas que antecipadamente sabiam que não iam cumprir, não porque não seja possível, mas sim por uma questão de opção. Os pressupostos do contrato que os eleitores celebraram com o PS, em 20 de Fevereiro, não vão ser cumpridos por uma das partes. É portanto legítimo que a outra parte denuncie o contrato e exija o seu cumprimento.

Aníbal C. Pires em “Politica” No Açoriano Oriental em 29 /04/05

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