Jogo da fraca política, já disponível a versão actualizada

mario_abrantes.jpgOs novos candeeiros de iluminação pública no Largo da Matriz são um desastre. Como se chegou a eles não sei. Admito até que opções estéticas benévolas de um arquitecto da Câmara pudessem estar por detrás da sua concepção, mas um técnico é apenas um técnico,
por isso não compreendo como tais opções puderam passar do papel para a realidade sobrepondo-se ao mais elementar bom-senso de quem, não sendo arquitecto, tem obrigação política de zelar pela história e cultura dos espaços que administra por mandato popular. Mas errar é humano e, apesar dos sobrecustos, emendar a mão será mais humano ainda. E falando da cidade de Ponta Delgada há uma outra mão, à qual o PSD (partido maioritário na Câmara) se referiu nas últimas eleições autárquicas, a emendar com urgência: a chegada dos Mini-Autocarros ao Ramalho. Estamos perante um caso inverso ao dos candeeiros, isto é, sendo uma medida que nunca suscitaria contestação, não há forma de passar do papel para a realidade… Subindo para o nível regional temos a trama da Segurança Social. O Governo reconhece a falta de controlo do Instituto de Acção Social sobre os seus próprios financiamentos às IPSS, os directores dos CPPSS de Ponta Delgada e Angra, e respectivos Chefes de Divisão, demitem-se sob pressão.
 
Não é propriamente uma operação “mãos limpas” no sector, mas saúda-se esta agitação pelos sintomas que ela revela da letargia e laxismo de que padecia anteriormente o exercício governativo por estas bandas. Estranho é o Presidente do Governo manifestar-se incomodado com o facto de a oposição (neste caso o PSD), que estava também em letargia de há uns tempos a esta parte, se ter lembrado de acordar de repente para este problema e…pôr os outros a correr para solucioná-lo! Até parece que a lebre gostaria de se ver livre das tartarugas para poder continuar no seu ripanço. Do nível regional para o nacional vem-nos, embora com gráficos menos espectaculares, a segunda edição das mentiras institucionais. Antes Sócrates desmentiu César e ficámos sem saber até hoje qual o verdadeiro grau do surripio, por este último consentido, na transferência para a Região das verbas do Orçamento de Estado que lhe são devidas.
 
Agora, Mariano Gago enceta uma versão mais arrojada e diz que sim, há verbas, mas faltam os projectos para os pólos universitários de Angra e da Horta, só que…afinal o Reitor diz que há projectos e que o Ministro é que não sabia. No meio está a virtude e afinal ficamos a saber que, dos projectos só metade, mas ficamos sobretudo sem saber é se o Ministro mantém as verbas depois de saber que…afinal há (ou vai haver) projectos. Desculpem a confusão, mas não consigo melhor… E como é norma, o grau de dificuldade aumenta quando passamos para o último nível, isto é, do nacional para o internacional. Nesta edição renovada do jogo de política indesejável temos então mais um episódio político de humilhação da administração norte-americana para com os colonizados.
 
700 repatriados já chegaram aos Açores (muitos por delitos menores). Menos grave do que isso seria portanto se as autoridades portuguesas decidissem repatriar os dois norte-americanos acusados nas Lages por delito relacionado com estupefacientes e pelo não pagamento de rendas ao senhorio português. Já imaginaram qual seria a reacção dos Estados Unidos? Mas nem isso os portugueses fariam. Limitar-se-iam a usar de um dos pilares naturais da soberania, os Tribunais, e a levantar-lhes um processo corrente. Indígenas a julgarem colonos? Era o que faltava. Para julgar norte-americanos, só norte-americanos…mesmo que cometam os delitos em território estrangeiro e mesmo que os ofendidos sejam os naturais desse território…
 
Mário Abrantes In Jornal dos Açores, 09/02/06